Baixo Sul da Bahia: Território, Educação e Identidades

Roça de negros

ESCRAVAS Descascando Mandioca (1858), Rio de Janeiro. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2023. Disponível aqui.

Roça de negros ou Roça de escravos eram termos utilizados para designar as roças de subsistência feitas pelos escravizados para a própria alimentação, vestuário ou cura.

 

A alimentação era muito cara no contexto colonial geral, já que a agricultura era voltada completamente para exportação. Os fazendeiros tinham dificuldade para alimentar escravizados, embora fosse seu dever providenciar a comida e a roupa dos trabalhadores, pois, caso contrário, poderia perder a “propriedade”. Costa (2010, 2016) destaca que na parte sul baiana a sobrevivência dos cativos era mais dificultada pois nem sempre os fazendeiros providenciavam os meios mínimos de alimentação, entre outras necessidades básicas. Além disso, a elite da região possuía um frágil cabedal econômico e, portanto, número menor de escravizados por propriedade, resultando em sobrecarga de trabalho e maior desgaste humano. Por isso, alguns concediam o acesso dos escravizados às roças de subsistência e viam nisso e no estímulo da formação de famílias escravas uma potencial forma de ampliar a mão de obra na agropecuária em geral.

 

O escravo podia trabalhar um dia na semana (geralmente aos domingos) para providenciar seu sustento e vestimenta. Era obrigatório o plantio da mandioca e do arroz, pela rentabilidade, seguida da banana e de outros víveres menos rentáveis como o inhame, gergelim e o quiabo. Às vezes, o excedente podia ser vendido e o lucro, revertido na compra da alforria. Entretanto, esse sistema era perverso para o cativo por causa das imposições de tempo de trabalho e do tempo adequado para a colheita, que também representavam o aumento da carga de trabalho e do desgaste físico. Isso motivou denúncias judiciais, greves, motins e fugas na região.

 

As roças de negros disseminaram conhecimentos africanos e ameríndios. Através delas, foram introduzidas e adaptadas várias ferramentas agrícolas e espécies botânicas desconhecidas ou desprezadas pelos europeus.

 

O tráfico transatlântico de pessoas no sul baiano introduziu animais e vegetais africanos no território. Cultivos e espécies foram rebatizados pelos agentes negreiros com nomes de portos ou regiões africanas de onde vinham. Em português, citamos como exemplos os adjetivos “da Guiné”, “da costa” ou “da terra”, que nomeiam espécies conhecidas no território, como a galinha d’angola, o milho da guiné, o inhame da costa ou a banana da terra, entre outras. (CARNEY e ROSOMOFF, 2009).

 

Dendezeiros na comunidade remanescente quilombola Torrinhas (Cairu-BA)

Por aqui, havia fazendas em que os desembarcados da África ficavam em quarentena, retomando a saúde e as condições de sua comercialização. Esses lugares costumavam ter criações e roçados voltados para a alimentação e cura dos sujeitos trazidos ilegalmente. Por outro lado, os quilombos que se formavam na região tinham na produção agrícola de base afro-ameríndia o principal meio de sobrevivência econômica, com destaque para a comercialização da farinha de mandioca e do azeite de dendê.

 

No final do século XVIII, um campesinato afro-brasileiro de subsistência tinha surgido na costa sul da Bahia, contrapondo a agricultura de exportação de fazendeiros brancos. Formara-se uma rede de sociabilidade entre aqueles negros, permitindo a negociação de mercadorias agrícolas nas pequenas vilas e também em alto-mar. Além do mais, os significativos números de alforrias da Bahia contribuíram para a instalação daquele tipo de campesinato, reforçando a empresa afro-brasileira na produção de mandioca e de gêneros de subsistência. As roças se tornaram fundamentais para o sustento da sociedade colonial, e eventualmente para a criação da gastronomia baiana. (SILVA, 2012; WATKINS e BARBOSA, 2020).

 

HORA, Alex da. Natureza morta com jaca, pupunha, guaraná e banana cultivados na Comunidade Quilombola do Barroso (Camamu-BA). Óleo sobre cartão telado, 20×30 cm. 2023

O sucesso do trabalho nas roças, feito por pessoas escravizadas, livres, aquilombadas ou forras, se devia também ao papel que a mulher negra desempenhava naquela sociedade. Agregadora e empreendedora, ela era a base de sustentação das famílias escravas e negras. Pelo trabalho de cada grupo familiar, foi possível a compra de alforrias e até de pequenas porções de terra. No século XIX, a maioria negra das vilas do sul já era livre e sobrevivia da agricultura de subsistência. (BARRETO, 2016; COSTA 2010, 2016; SILVA, 2017)

 

Essas roças se transformaram na essência da vida rural da Bahia. Atualmente, “roça” é o termo usado para descrever pequenas propriedades rurais, paisagens agrárias ou comunidades rurais. Para o povo de santo, roça significa o espaço de seu templo religioso, o lugar do culto de seu sagrado. (WATKINS e BARBOSA, 2020)

 

Foto de uma campanha de agricultoras do Baixo Sul contra a fome, em 2020 Fonte: https://www.facebook.com/coomafes.cooperativa/.

As mulheres negras continuam protagonizando a produção de alimentos nas roças do Baixo Sul: através da agricultura familiar, elas seguem constituindo redes de apoio e empreendedorismo, sendo imprescindíveis para a geração de renda e segurança alimentar do povo da região.

 

Por: Nelma Barbosa, artista plástica, doutora em Estudos Étnicos e Africanos e professora do Instituto Federal Baiano, Campus Valença.

 

Quer saber mais?

 

Palestra “Plantas alimentares africanas no mundo atlântico” com a pesquisadora Judith Carney

 

Loja Espaço Solidário – Coomafes Cooperativa

 

Barreto, Virgínia Queiroz. Fronteiras entre a escravidão e a liberdade: histórias de mulheres pobres e livres, escravas e forras no Recôncavo Sul da Bahia (1850-1888). Tese (doutorado em História). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2016

 

Carney, Judith A.; Rosomoff, Richard Nicholas. In the Shadow of Slavery: Africa’s Botanical Legacy in the Atlantic World. Berkeley: University of California Press, 2009.

 

COSTA, Alex Andrade. Entre a roça e a moradia: escravidão do Recôncavo Sul da Bahia (1850-1888). Politeia: História e Sociedade, Vitória da Conquista, vol. 10, no. 01, pgs. 131-150, 2010

 

COSTA, Alex Andrade. Tramas e contendas: escravos, forros e livres constituindo economias e forjando liberdades na Baía de Camamu, 1800-1850. Tese (doutorado em História) – Universidade Federal da Bahia. Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Salvador, 2016

 

SILVA, Egnaldo Rocha da. Campesinato negro: conflito e luta pelo acesso e permanência na terra no Baixo Sul da Bahia (1950-1985). Tese (Doutorado em História) Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 2017.

 

WATKINS, Case e BARBOSA, Nelma. Terra do dendê: História, complexidade e singularidade da paisagem e economia do dendê na Bahia – Submetido em suporte do projeto Indicação Geográfica do Azeite da Costa do Dendê. Valença – BA, 51 pgs., 2020.