Baixo Sul da Bahia: Território, Educação e Identidades

Quilombo do Pratigi (Camamu-BA)

Localização e território


O Quilombo do Pratigi está situado no município de Camamu, no Baixo Sul da Bahia (ver imagem 1). Essa comunidade pode ser acessada por via marítima ou por via terrestre. Em termos de infraestrutura a comunidade tem uma igreja católica no centro, uma igreja evangélica, uma escola do ensino fundamental I, posto de saúde improvisado em uma casa alugada pela prefeitura, as casas são todas de cimento e concreto. O território pratigiense é formado pelo centro do Pratigi e três núcleos territoriais: Cajazeira, Quigeme e parte do Cobico. A comunidade é composta por aproximadamente 48 famílias, ligadas entre si por parentesco, amizades e compadrio. A economia se baseia em pesca, mariscagem, agricultura (notadamente o cultivo de cacau) e em parte em aposentadorias rurais.

 

Convenções cartográficas - Pratigi
Figura 1 – Mapa de localização da comunidade do Pratigi Fonte: Barros (2021).


Essa comunidade pertence à região que Barros (2021) denomina Sistema de Quilombo Sul-Camamuense (SQSC), compõe as comunidades quilombola do sul do município de Camamu. Nessa região, encontram-se cinco das dez comunidades certificadas ou tituladas: Pratigi, Pedra Rasa, Garcia, Porto do Campo e Tapuia. Barros chama de SQSC porque essas comunidades interagem entre si, mantêm relações de amizade, compadrio e matrimônio, além de integrarem um circuito de festas — visitas entre elas ocorrem especialmente nos momentos festivos.

 

Fundação do Pratigi: origem, percurso, estabelecimento, memória e identidade. 

 

A fundação do Pratigi remonta à migração de fundadores como Maria dos Santos, Anjo Barros, Faustino Barros e outros, que adquiriram as terras do Pratigi após um percurso pelo território Sul da Bahia, e assim, eles construíram uma história de ocupação e pertencimento no Pratigi. A memória coletiva exerce papel central: histórias de origem, promessas a Santo Antônio e trajetórias familiares são elementos constitutivos da identidade local.  A história começa com Maria dos Santos e seus filhos, Anjo, Faustino, João e Filipe, que viviam em um quilombo no território de Gandu, Bahia. Por volta de 1883, esse quilombo foi atacado por fazendeiros que enviaram jagunços para devastar roças, capturar ou matar quilombolas e usurpar as terras. 

No momento da fuga, os Barros levaram consigo a imagem de Santo Antônio, herança familiar, pertencente à irmã de Anjo Barros, além de uma quantia de dinheiro proveniente da venda de cacau cultivado no quilombo. Refugiados primeiramente em Itacaré-BA por um período; não se sabe se trabalharam em fazendas, abrigaram em outro quilombo ou acoitados. Com os recursos que traziam, adquiriram um terreno chamado “os Barros”, na divisa entre Barroso e Varjão, em Camamu, no Baixo Sul da Bahia, de onde mais tarde tornaram a serem expulsos pelos cacauicultores locais ( ver Barros, 2021). Então fugiram novamente.

Ao fugirem, começaram a trabalhar em fazenda de cacau no município de Almada. Ao retornarem a Camamu, conseguiram receber parte do dinheiro do fazendeiro do Varjão, o qual os expulsou das suas terras, anteriormente. Dessa forma, conseguiram juntar 30 mil réis. Então, utilizaram esse montante para retornar a Camamu e negociar a compra de terras (Ver imagem 2) do Pratigi. 

Em 1908, Anjo Barros e seus familiares, incluindo a parceria com a família Justinho oriunda da comunidade vizinha Barcelos do Sul, adquiriram a área que hoje se chama Pratigi. Formalizando a compra no cartório da Comarca de Camamu. A escritura foi firmada com três herdeiros: Francisco Gonçalves da Silva Neto, Antônio Gonçalves da Silva e Maria Carolina da Silva.  Já instalados nessas terras, os Barros construíram uma capelinha de taipa dedicada a Santo Antônio, celebrando a aquisição do território e marcando o início da comunidade. Desde então, a festa ao padroeiro — realizada todo dia 13 de junho — tornou-se momento central de identidade social, religiosa e política para os pratigienses.

Deslocamento dos Barros até chegar as terras do Pratigi
Figura 2 – deslocamento dos Barros até chegar as terras do Pratigi. Fonte: Barros (2021).


A Figura 2 mostra todo o percurso feito pela família Barros até a chegada e povoação do Pratigi, em Camamu (BA). As setas indicam a ordem do percurso feito pelos Barros nesta caminhada. O ponto inicial é Gandu, e o ponto final, em vermelho, é Pratigi.

 

Festa de Santo Antônio e Vida Ritual no Quilombo do Pratigi

A festa em honra ao padroeiro Santo Antônio é evento religioso-cultural chave no Pratigi. Ela ocorre todos os anos entre 1º e 13 de junho, com especial importância nos dias 12 e 13, quando se realizam a missa e a festa dançante. As trezenas (orações durante doze noites consecutivas) antecedem a missa e a procissão no dia 13. Esses momentos religiosos convivem com celebrações profanas, conhecidas como “festa dançante”. A festa mescla o sagrado e o profano: missas, novenas/trezenas, procissão, cuidados com a igreja e o Santo coexistem com música, convívio, comidas, alegria (Barros, 2022 a).

Desde da origem da comunidade, a festa vem sendo organizada por integrantes da família Barros: Anjo Barros, Maria dos Santos (sua mãe), Dona Santa (esposa de Anjo), Tidu (filha de Maria dos Santos), entre outros. Após a morte de Anjo, a responsabilidade pelo evento passou para Valentina Barros, a filha de Anjo Barros, depois para Maria de Lurdes (filha de Valentina), Lia e Diana. 

As mulheres desempenham papel central: enfeitam a igreja, escolhem as rezas, coordenam as trezenas, cuidam da manutenção da igreja, organizam convites (para comunidades, padres…), preparam lanches etc. Durante a festa (religiosa), convidam políticos partidários e padres para suas casas, onde ocorrem conversas privadas que exercem função de articulação política (Barros e Cerqueira, 2022). Os homens participam mais da festa dançante e da articulação junto ao poder político, atuando como cabos eleitorais ou organizadores dos eventos públicos, a festa dancante. 

 

Memória, territorialidade e poder


Santo Antônio carrega memória ancestral: a imagem do santo foi levada pelos Barros desde Gandu até o Pratigi, sendo herança da família. A festa foi realizada pela primeira vez logo após a aquisição das terras (1908), como cumprimento de uma promessa feita a Santo Antônio (Barros, 2022 b). A festa funciona também como instrumento de afirmação territorial e social. Por meio dela, os pratigienses reafirmam sua história, seus laços de parentesco e compadrio, e consolidam sua identidade enquanto quilombo. Além disso, a festa mobiliza políticas locais: políticos municipais participam; a festa dançante atrai visitantes externos; são contratadas bandas; há disputas por quem organiza, ou seja, a festa é espaço de visibilidade política no Pratigi.
 

As novenas/trezenas são ofertadas cada noite a um grupo ou localidade (casados, solteiros, crianças, núcleos territoriais, comunidades externas, etc.). No dia 13, realiza-se missa solene e procissão. Durante os treze dias há venda de alimentos (feijoadas, mingaus, beijus), e lanches preparados pelas mulheres, atividades que servem para arrecadar fundos, sobretudo, para a festa religiosa.

 

Resistência simbólica, tradição e tensões

Há forte resistência à mudança da fé religiosa tradicional: no centro do Pratigi quase não há protestantes ou evangélicos, em parte em razão da devoção histórica a Santo Antônio e das promessas e memórias que vinculam a comunidade ao santo. Foi implantada uma igreja evangélica no núcleo territorial do Cobico, mas essa mudança gera tensões simbólicas. Pois, a parte dessa família que implementou o protestantismo dentro da comunidade tem fortes ligações com a política partidária.

Há certas disputas internas: quem cuida do Santo ou da festa pode causar tensões dentro da família Barros, entre gerações ou entre núcleos territoriais; disputas por visibilidade, por quem será “cabo eleitoral” ou por quais bandas serão contratadas; há necessidade de respeito às práticas tradicionais como parte da identidade. 

 

Situação atual e desafios

A comunidade enfrenta os desafios comuns a muitos quilombos: garantir direitos territoriais (titulagem, demarcação), preservar e valorizar práticas culturais, resistir a pressões externas (uso da terra por terceiros; políticas públicas insuficientes). Há também disputa simbólica: afirmar a existência comunitária, visibilidade, reconhecimento dentro e fora do município. A festa de Santo Antônio, as memórias históricas e a organização comunitária são formas de resistência e afirmação da identidade pratigiense.

Por: Fábio Júnior da Luz Barros, Quilombola do Pratigi, geógrafo, educador, mestre em Estado e Sociedade (UFSB) e professor universitário.

 

Quer saber mais?

Camamu Ba, Comunidade do Pratigí Ep018 2022História de N Esperança

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Pratigi e estrada de Cajaíba Camamu Ba Ep067 2021

BARROS, Fábio Júnior da Luz. Memória, festa de Santo, território e alianças políticas: uma etnografia do quilombo do Pratigi (BA). Dissertação (Mestrado em Estado e Sociedade) – Universidade Federal do Sul da Bahia, Porto Seguro, 2021. 188 p. 

 

BARROS, Fábio Júnior da Luz. Festa e política: uma análise da comunidade quilombola do Pratigi (BA). História em Revista, v. 29, n. 1, p. 138-157, jan. 2024. a

 

BARROS, Fábio Júnior da Luz; CERQUEIRA, Ana Carneiro. O Santo Antônio e as mulheres: fé e liderança política na comunidade quilombola do Pratigi (BA). In: Célia Sales de Almeida; Marília Martins de Araújo (orgs.). Mulheres, resistências e direitos fundamentais. Foz do Iguaçu, PR: CLAEC, 2022, v. 1, p. 55-66.


BARROS, Fábio Júnior da Luz. Diferenças e continuidades na política: uma análise a partir da cozinha e da comida no quilombo do Pratigi (BA). Anais da IX Reunião de Antropologia da Ciência e Tecnologia, v. 6, n. 6, 2024.b