Durante a colonização, a existência de águas navegáveis, madeiras abundantes e diversificadas, além da mão de obra qualificada e do reduzido controle e fiscalização da Metrópole, fizeram da região ao sul do principal porto do Hemisfério (Salvador), uma referência em carpintaria naval.
Sedimentado como ponto de abastecimento e de apoio às embarcações de grande e de pequeno porte, o Baixo Sul da Bahia abrigou diversos portos e estaleiros essenciais à realização das atividades comerciais coloniais, fossem legalizadas ou não. Apesar de ser destinada à produção de alimentos, essa parte da costa foi importante para os navegadores da época, pois era um lugar estratégico para atividades de comércio e abastecimento do mercado interno. E esse mercado mantinha o tráfico transatlântico de pessoas escravizadas, precisava de portos alternativos para a continuidade de suas ações. Na logística dessas atividades “comerciais”, o transporte marítimo era item essencial. (SANTOS, 2018)
Nesse contexto, desenvolveu-se o município de Valença, um lugar próximo a um importante equipamento para a navegação, o Farol do Morro de São Paulo, que permitia a circulação segura de embarcações repletas de mercadorias e de pessoas (livres ou escravizadas) em suas águas. Seus diversos estaleiros eram uma garantia da continuidade da viagem em segurança. Por isso, atualmente a cidade abriga os estaleiros mais antigos e reconhecidos do país. Localizada nas margens do rio Una, ela é a principal responsável pela construção, reparo e manutenção de embarcações, como canoas, escunas, veleiros, saveiros e catamarãs na região.
Os estaleiros dessa região tiveram, durante muito tempo, um papel importante na economia local e no setor naval do estado, contribuindo para o desenvolvimento da indústria náutica na região Nordeste do Brasil. Além disso, essa paisagem chama a atenção de órgãos e estudiosos do patrimônio cultural brasileiro. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional elegeu a paisagem do patrimônio naval de Valença como uma das mais relevantes do Brasil (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2011)
Nesse cenário de expressiva produção naval, percebe-se a sobrevivência de saberes, tecnologias e técnicas ancestrais. Um exemplo disso é a canoa de calão que, ao lado da construção naval, se mantém presente na paisagem de Valença.

A canoa de calão é um artefato tipicamente africano, feita ainda nos estaleiros da cidade e já raro no Brasil. Segundo Cunha (2017, pg. 293), tais canoas
[…] possuem borda acrescida de tabuado que alteia o casco, são movidas à vela e comportam até oito pescadores. Estes rotineiramente saem para a pesca durante a madrugada e retornam ao final da manhã ou início da tarde para comercializar o pescado nas amuradas e escadarias localizadas à margem do rio Una, que corta a cidade.
É dentro da canoa de calão que o pescado é comercializado, sem intermediários externos, assim que o pescador retorna da pescaria. A pesca artesanal atende 90% do mercado interno do município (CUNHA, 2010). No porto de Valença é que esse tipo de atividade acontece, integrando-se à dinâmica urbana e resistindo às feições das relações comerciais da pesca na contemporaneidade:
O porto de Valença é caso único no Brasil onde, em um contexto já bastante urbanizado, as últimas canoas de calão em atividade tentam sobreviver em meio a um processo de massificação do comércio, de expulsão dos pescadores do centro da cidade e de higienização dos processos de obtenção, armazenamento e comercialização de peixes, moluscos e crustáceos. (INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL, 2011, pg 16)
As canoas, sejam elas de calão ou brasileiras, junto com os estaleiros compõem uma importante paisagem cultural. Inclusive, durante a formação do núcleo urbano da cidade, a parte leste foi destinada à essas atividades, formando o bairro do Tento, que abriga também o porto da cidade.
Estaleiros e canoas erigiram o bairro do Tento na transição do século XIX para o XX. Essa área se consolidou como um bairro de pescadores e, além de abrigar muitos estaleiros, é reconhecido como sede de uma das principais festas da cidade: a Festa de São Pedro, Padroeiro dos Pescadores. É interessante notar que, por iniciativa de antigos trabalhadores do mar, foi criada uma escola para seus filhos nesse local, que evoluiu junto com as políticas públicas educacionais e afirmativas no Brasil. Mais de cem anos depois, a escolinha foi transformada em um campus do Instituto Federal da Bahia, que oferta, entre outros cursos, o de Técnico em Aquicultura.
Os estaleiros ultrapassaram os limites do Bairro do Tento e espalharam-se pelas duas margens do rio Una. Eles se destacam na construção de embarcações de madeira, reunindo técnicas sofisticadas transmitidas de pai para filhos, de mestres para aprendizes. Cabe salientar que, quando falamos de construção naval em Valença, não falamos de um único estaleiro, mas sim de “estaleiros”. Aqui, cada mestre possui seu próprio estaleiro, não excluindo a possibilidade de ter mais de um mestre em um mesmo estaleiro…

Atualmente, a maioria das embarcações é destinada ao turismo e à atividade pesqueira, destaques na economia do município. A geografia estuarina produz uma riqueza de mariscos e pescados nas águas que circundam Valença. Já no turismo, destaca-se o transporte, principalmente para Morro de São Paulo e Gamboa do Morro, entre outras tantas ilhas do Arquipélago de Cairu.

Os mestres da carpintaria naval se destacam pela precisão de cálculos, e demais conhecimentos técnicos e ecológicos, fundamentais na sua experiência de dar forma, desempenho e segurança às embarcações.
O estaleiro de Valença ganhou baste destaque na mídia na década de 1990, ao construir a réplica de uma caravela sob encomenda, para o filme estadunidense “1492: A descoberta do paraíso”, de Ridley Scott.

Esse trabalho exigiu um trabalho investigativo e técnico primoroso, pois trata-se de uma construção das mais complexas (BASTOS, 2023). E Valença foi escolhida para sediar a execução porque seus mestres ainda seguiam as mesmas normas de fabricação das embarcações comuns nos empreendimentos coloniais dos séculos XV e XVI. Uma das técnicas essenciais dessa construção, o graminho, deriva dos conhecimentos africanos aplicados na construção de barcos pelos egípcios, pioneiros na navegação mundial. Esse instrumento ancestral africano permite obter parâmetros com escalas e proporções necessárias para construção de barcos. É ele que garante a marcação correta para o corte preciso da madeira. Saber riscar o graminho assegura aos carpinteiros navais de Valença uma qualidade que os diferencia de outros e os coloca como herdeiros únicos de um saber tradicional em extinção. O domínio desse artefato científico africano está intrinsecamente ligado ao desempenho e resistência das embarcações (BASTOS, 2023; QUEIRÓZ, 2015).


Foi esse saber, por exemplo, que permitiu o êxito da construção de duas réplicas de naus da frota de Cristóvão Colombo nos estaleiros de Valença, Bahia. Uma foi feita em 1991 e outra em 2005. Ambas navegaram perfeitamente nos Estados Unidos.(BASTOS, 2023)
A cópia da embarcação Nina, que integrou a esquadra de Cristóvão Colombo, foi feita pelo mestre Valtinho, considerado um dos últimos grandes mestres da carpintaria naval da região. Filho de mestre Alfredo, Valtinho faleceu em 2017. (VALENÇA AGORA, 2017)

Ao visitar um estaleiro em Valença, ou fazer contato com algum mestre carpinteiro, ao falar de suas memórias, grande destaque será dado aos seus antigos, os mestres que lhes ensinaram a arte de dar forma a madeira. Podemos citar os mestres Alfredo, Valtinho, Zezinho Galo, Tenorio, Apolo e tantos outros.

O estaleiro de Valença produziu e produz muito mais que embarcações utilizadas na pesca e no turismo. Ele se destaca também pela construção de parte da memória e da identidade do povo valenciano, sobretudo dos bairros do Tento e da Graça, onde os estaleiros estão localizados. Nessa parte da cidade, a população diariamente tem contato com a arte naval, seja por meio do som do maquinário, seja pelo contato direto da produção desses barcos em seu dia-a-dia, ou por ter alguém de sua família inserido no contexto da arte naval. Também podemos citar a importância do contato constante com o rio, e como essa relação é possibilitada por meio das embarcações.

Entretanto, a construção naval encontra-se em declínio devido a: legislação ambiental, que regula ou impede a exploração de madeiras adequadas à carpintaria; pouca mão de obra qualificada para o trabalho, uma vez que as novas gerações não se interessam mais pela arte naval. Além disso, as novas tecnologias disponíveis no mercado e aplicadas às embarcações, tais como a fibra de vidro; as dificuldades e desgaste físico do trabalho manual e a relativa facilidade para a aquisição de barcos construídos industrialmente colaboram com a redução do interesse e da demanda de produtos navais artesanais.
O futuro da arte naval, sendo mais específico, o futuro das embarcações feitas com madeira é incerto, uma vez que a dificuldade maior não é mais a falta de equipamentos sofisticados. Agora, falta-nos a mão de obra qualificada. Por isso, devemos cada vez mais buscar preservar esse patrimônio de saberes, seja por meio de uma política de valorização dos estaleiros, da Educação ou da construção de espaços de memória. Só assim, as próximas gerações poderão acessar um dos grandes legados da identidade local e regional.
Por:
Juan Vitor dos Santos Fernandes: valenciano, licenciado em História e mestrando em História pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Integrante do Centro de Estudos Africanos e da Diáspora Africana e nas Américas – AFROUNEB. É professor de História na rede particular de Valença.
Texto editado por: Profa. Dra. Nelma Barbosa (IF Baiano)
Talhando a História: Estaleiro de Valença, Entre o Una e as embarcações. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XVPOQ1jD0Ko
Réplica de uma caravela portuguesa. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ETrV3I-ILwA
Feito Torto Pra Ficar Direito (2015) – telefilme. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=W1PgRXBK_HI
BASTOS, Marcelo Filgueiras. Ofício de mestre carpinteiro naval: registro especial de ofício. Fundação Gregório de Mattos, 2023. Disponível em: https://fgm.salvador.ba.gov.br/wp-content/uploads/2023/06/OFICIO-DE-MESTRE-CARPINTEIRO-NAVAL.pdf
BONALUME NETO, Ricardo. Brasil. 500 ANOS – Grupo prepara réplica de nau de Cabral em estaleiro baiano: Objetivo é comemorar o descobrimento oficial do Brasil. Folha de São Paulo, São Paulo-SP, 29 de março de 1998
CUNHA, Erika Jorge Rodrigues. Intervenções no espaço urbano: um desafio à paisagem. O estudo de Valença [Bahia], Brasil. Revista Labor & Engenho, v.4, n.2, 2010.
CUNHA, Erika Jorge Rodrigues. Estudo sobre a paisagem cultural de Valença. In: CASTRIOTA Leonardo Barci e MONGELLI, Mônica de Medeiros (Orgs). Anais do 1o Colóquio Ibero-americano – Paisagem Cultural, Patrimônio e Projeto. N. 6 ; V. 1. Belo Horizonte: IEDS, 2017, pgs 294- 299
INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSITICO NACIONAL. Reflexões sobre a chancela da Paisagem Cultural Brasileira. Coordenação de Paisagem Cultural. Brasília-DF, 2011. Disponível em: https://documentacao.socioambiental.org/noticias/anexo_noticia/19930_20110518_093241.pdf
POLETTI, Sílvia Maria. A genealogia saveirista e as escolhas técnicas associadas a manutenção dos barcos na costa sul da Bahia. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social), Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2023.
QUEIROZ, Adylane Santos de Jesus. Portal Estaleiros de Valença: Organização das memórias da arte naval do município de Valença-Ba. Dissertação (Mestrado Profissional Gestão e Tecnologias Aplicadas à Educação), Universidade do Estado da Bahia (UNEB), Salvador, 2025
SANTOS, Denise Gomes Dias. Os segredos da arte: os carpinteiros navais do Baixo Sul da Bahia sob um olhar etnolinguístico. Tese (Doutorado em Letras), Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2004.
SANTOS, Silvana Andrade dos. Nestas costas tão largas: O tráfico transatlântico de escravizados e a dinamização de economias regionais no Brasil (c. 1831 – c. 1850). Revista de História, São Paulo, n. 177, p. 01–36, 2018. Disponível em: https://revistas.usp.br/revhistoria/article/view/140743. Acesso em: 31 jul. 2025.
SMARCEVSKI, Lev. Graminho, a alma do saveiro. Odebrecht. Salvador, 1996.
VALENÇA SE DESPEDE DE UM ÍCONE DA CONSTRUÇÃO NAVAL, MESTRE VALTINHO, Jornal Valença Agora, 21 de jul. de 2017, Valença-BA. Disponível em: https://valencaagora.com/valenca-se-despende-do-icone-da-construcao-naval-mestre-valtinho/. Acesso em: 30 de julho de 2025
Projeto conduzido pelo Grupo de Pesquisa NEABI do IF Baiano (CNPq), sob coordenação das docentes Dra. Nelma Barbosa e Ma. Scyla Pimenta, no âmbito do curso de Especialização em Relações Étnico-Raciais e Cultura Afro-brasileira na Educação (REAFRO) e do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (IF Baiano Campus Valença).
Contato: nelma.barbosa@ifbaiano.edu.br